Laura Vieira debate sobrecarga materna

Publicada em 11/09/2026

Ter ou não ter filhos? Uma pergunta que incide sobre a sociedade contemporânea e escancara a divisão desigual das responsabilidades entre mães e pais estará no centro de uma das discussões da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. E a responsável pela mediação desse debate é a servidora da UFSJ - Universidade Federal de São João del-Rei, Laura Elisa Nascimento Vieira. Pesquisadora e uma das autoras do livro “O filho é da mãe: parentalidade e sobrecarga materna”, Laura participa, neste domingo (13), de duas atividades no evento: uma sessão de autógrafos, às 13h, no estande A78, e a mediação da mesa “Maternidade tem futuro? A decisão de ter ou não ter filhos”, das 14h30 às 15h30, no Salão de Ideias.

O encontro reunirá as escritoras Mariana Lobato Botter, Simone Barata e Ruth Manus para discutir as escolhas relacionadas à maternidade em uma sociedade marcada por famílias menores, mudanças nos papéis de gênero, maior participação feminina no mercado de trabalho e uma carga de cuidado que continua recaindo, principalmente, sobre as mulheres.

Mais do que formular uma resposta única para a pergunta proposta pela mesa, o debate pretende examinar as condições concretas em que as mulheres decidem ter, adiar ou não ter filhos. A discussão envolve autonomia, trabalho, expectativas sociais e a distribuição das responsabilidades parentais, dimensões que atravessam a pesquisa desenvolvida por Laura durante o mestrado na UFSJ.

Secretária-executiva trilíngue, graduada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) em 2009, Laura atua na Reitoria da UFSJ desde 2011. Em 2024, concluiu o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade. A pesquisa deu origem ao livro, escrito em coautoria com seu orientador, o professor Cláudio Márcio do Carmo, e publicado pela Editora Appris em março de 2026.

Na obra, os pesquisadores analisam criticamente a Lei nº 14.457/2022, que instituiu o Programa Emprega + Mulheres. Embora a legislação empregue o conceito de parentalidade, Laura observa que muitas das responsabilidades previstas continuam dirigidas prioritariamente às mulheres. “O primeiro problema que a gente vê é endereçar a lei à mulher, sendo que ela é muito mais voltada para a parentalidade. Se estamos falando de parentalidade, por que a mãe continua ocupando a centralidade desse papel e dessa responsabilidade?”, questiona.

Para Laura, a adoção de uma terminologia aparentemente mais inclusiva não é suficiente quando as práticas sociais e institucionais continuam atribuindo à mulher a maior parte do trabalho de cuidado. “Usa-se parentalidade no lugar de maternidade e continua-se a colocar a mãe na centralidade dessas relações, o que gera uma sobrecarga absurda”, afirma.

A análise se estende a manifestações cotidianas da linguagem e da cultura. Um dos exemplos abordados no livro é a sinalização de fraldários, frequentemente representada pela imagem de uma mulher cuidando de uma criança. Mesmo quando o espaço está localizado fora do banheiro feminino, a figura escolhida comunica quem a sociedade considera responsável por aquela tarefa. “A sociedade vai naturalizando essa sobrecarga como se fosse um destino biológico, ignorando que isso é, na verdade, um fato social. A maternidade, além de poder ou não ser biológica, é um fato social. A gente constrói isso socialmente”, argumenta a pesquisadora.

O título do livro recupera uma expressão corrente para expor essa construção. Ao afirmar que “o filho é da mãe”, a linguagem popular não apenas identifica uma relação, mas também condensa uma ideia histórica de responsabilização quase exclusiva da mulher. O trabalho desenvolvido por Laura procura tornar visíveis mecanismos como esse, frequentemente reproduzidos sem questionamento em leis, notícias, imagens e situações da vida cotidiana.

Mãe de João, nascido em 2020, Laura acentua que, na Bienal, não pretende ocupar o lugar de quem oferece respostas definitivas. Sua função como mediadora será favorecer uma conversa que reconheça a diversidade das experiências femininas e trate a maternidade como escolha e questão coletiva, não como destino obrigatório ou responsabilidade individual da mulher.

Bienal abre espaço para questões do presente

A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo reúne, até 13 de setembro, autores, leitores, editoras e profissionais do setor em uma programação dedicada tanto à literatura quanto a debates contemporâneos. A edição ocupa 86 mil metros quadrados e conta com 269 expositores.

O Salão de Ideias, espaço no qual Laura atuará como mediadora, recebe discussões sobre questões sociais, culturais e políticas. A mesa sobre o futuro da maternidade integra essa proposta ao aproximar a produção literária de um debate que afeta as escolhas, a permanência no trabalho, a autonomia e a saúde de milhões de mulheres.

O convite para participar da programação partiu da curadora do espaço, Cris Pàz, e surpreendeu Laura. “Ela me ligou e disse que estava montando uma mesa e gostaria de me convidar para mediar. Eu respondi que nunca tinha feito isso e que me sentia muito honrada”, recorda.

Laura recebe o convite, sobretudo, como reconhecimento da relevância pública da pesquisa. “Eu não me sinto uma autora; sou uma pesquisadora que publicou um livro. A escrita atravessa o meu trabalho e está presente nele, mas o que considero fundamental é levar essa temática para a discussão”, diz.

Participar da Bienal amplia o alcance de um estudo que nasceu no ambiente acadêmico, mas se dirige a um problema vivido muito além dele. Ao colocar a sobrecarga materna em debate, Laura chama atenção para uma contradição ainda persistente, onde a sociedade passou a falar mais em parentalidade, mas não necessariamente aprendeu a repartir, de maneira justa, o cuidado. “É extremamente válido e relevante colocar isso na mesa e discutir mais, porque só assim conseguimos transformação. Sempre que eu puder levar esse assunto ao debate, vou me sentir honrada”, finaliza.

Luciene Tófoli

Assessora de Relações Institucionais e Corporativas