Estudo da UFSJ aponta impacto do fogo em perereca encontrada na Serra do Lenheiro
Publicada em 14/09/2026
Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) identificou, pela primeira vez, um efeito direto do fogo sobre o comportamento reprodutivo da perereca Pithecopus ayeaye, espécie endêmica de campos rupestres e encontrada na Serra do Lenheiro, em São João del-Rei. O trabalho foi publicado na revista internacional Salamandra e aponta que a espécie altera o período de reprodução em resposta às mudanças provocadas pelas queimadas no ambiente.
A pesquisa foi desenvolvida por alunos da pós-graduação em Ecologia e da graduação em Ciências Biológicas da UFSJ. No estudo, os pesquisadores observaram que as queimadas ocorridas em setembro de 2024 provocaram um atraso de dois meses no pico reprodutivo da espécie. Normalmente registrado em novembro, o período passou para janeiro após o incêndio. Também foi observada uma redução acentuada no número de desovas.
Dependência da vegetação
Durante a reprodução, as fêmeas de Pithecopus ayeaye depositam os ovos em folhas de arbustos localizados às margens de cursos d’água. Após a eclosão, os girinos caem na água, onde completam seu desenvolvimento. Por isso, a espécie depende diretamente da vegetação arbustiva para se reproduzir.
As queimadas removem parte dessa vegetação, o que pode interromper as condições necessárias para a reprodução. Segundo os pesquisadores, o atraso observado pode estar relacionado ao tempo necessário para que os arbustos se regenerem.
Embora essa capacidade de alterar o período reprodutivo possa representar um mecanismo de adaptação ao fogo, o adiamento também pode trazer consequências negativas para a espécie. Como a reprodução ocorre em corpos d’água temporários, esses ambientes podem secar antes que os girinos completem seu desenvolvimento. O atraso também pode aumentar a exposição dos animais a predadores e outros fatores de risco. Já a redução no número de desovas pode afetar a dinâmica populacional da espécie a longo prazo.
Inspiração para a pesquisa
A pesquisa teve origem após uma queimada em uma área onde havia sido desenvolvido o estudo de mestrado da ex-discente Talita de Resende. Segundo Wesley Jônata da Silva Oliveira, aluno da pós-graduação em Ecologia e um dos autores do trabalho, a região sofre frequentemente com queimadas ilegais e ainda existem poucos estudos sobre os impactos dos incêndios sobre a fauna local.
Ao descobrirem que a área havia sido totalmente atingida pelo fogo, os pesquisadores retornaram ao local para acompanhar a reprodução da espécie e comparar os resultados com dados coletados antes da queimada.
A análise mostrou alterações tanto no período reprodutivo quanto na quantidade de desovas, caracterizando, segundo o estudo, um registro inédito desse efeito do fogo sobre a reprodução de Pithecopus ayeaye.
Os pesquisadores também alertam para a possibilidade de efeitos sinérgicos entre as mudanças climáticas e o aumento da ocorrência de incêndios, que podem contribuir para o declínio populacional de espécies de anfíbios dependentes de ambientes terrestres para a reprodução.
“Acreditamos que o trabalho possa fomentar novas pesquisas sobre os efeitos do fogo sobre a fauna de ambientes frequentemente sujeitos a incêndios, um fenômeno ainda pouco compreendido, além de contribuir para o desenvolvimento de políticas de manejo do fogo e estratégias de conservação”, afirma Wesley Oliveira.
Autores
O estudo tem autoria de Wesley Jônata da Silva Oliveira, Talita de Resende Bueno, Gabriel Costa Santos, Gabriel Amaral Bonani, Thales Lacerda, Ramon Moreira Fernandes, José Guilherme Resende Silva e Souza e Rafael Félix de Magalhães.
Para os pesquisadores, os resultados contribuem para ampliar a compreensão dos efeitos do fogo sobre a fauna de ambientes sujeitos a incêndios e podem subsidiar estratégias de manejo do fogo e estudos relacionados à conservação da biodiversidade.